Em países como Espanha e México, o sistema de ônibus expresso, o BRT, é a opção de transporte público eficiente. Por que não no Brasil?
A espanhola Martha Lopez, de 23 anos, poderia dividir o carro com a irmã, mas nem se deu ao trabalho de tirar carteira de motorista. Ela vai a qualquer lugar em Madri de ônibus e metrô. Aos 25 anos, a mexicana Maru Cavas só tira o carro da garagem nos fins de semana, quando visita os pais ou viaja, porque se locomove com mais rapidez pela Cidade do México usando o transporte público. A paulistana Fernanda Alves dos Santos, de 21 anos, moradora da zona sul de São Paulo, gastou todas as economias para fazer o inverso — comprar um carro e fugir do transporte público. A reportagem de EXAME conversou com essas três mulheres, todas estudantes universitárias, e constatou que, mais que uma opção pessoal ou um padrão cultural, a diferença de comportamento entre elas é ditada pela qualidade do transporte público nas cidades em que vivem. Mais precisamente por um tipo específico de transporte: o ônibus. Enquanto em São Paulo e nas demais cidades brasileiras o ônibus é sinônimo de desconforto, atraso e ineficiência, nas capitais mexicana e espanhola, esse meio de transporte é visto como um aliado para ganhar tempo na rotina urbana. Marta e Maru têm a resposta pronta quando lhes perguntam por que andam de ônibus: “Porque até parece metrô”. A explicação está no fato de que, tanto Madri quanto a Cidade do México, cada qual à sua maneira, adotaram um sistema de ônibus conhecido pelo nome de BRT, sigla em inglês para Transporte Rápido por Ônibus. O BRT conta com sistemas de gestão e tecnologias que lhe dão agilidade e conforto semelhantes ao de um metrô — e pode ser uma solução para as entupidas metrópoles brasileiras.
Os ônibus em Madri utilizam faixas exclusivas, têm ar-condicionado e operam com pontualidade. Um sistema de informação permite que o passageiro veja o horário em que o ônibus vai passar em cada ponto — em painéis instalados nas estações, no site da empresa e por um serviço via celular. Ônibus noturnos, chamados Buho (coruja, em espanhol), circulam da meia-noite às 6 e meia da manhã, a cada 20 minutos, seguindo o trajeto do metrô, que fecha na madrugada. Na Cidade do México, a espinha dorsal do transporte público sobre rodas é o Metrobus, um BRT que tem à disposição corredores com três pistas de cada lado. Duas permitem a ultrapassagem e a terceira atende ao chamado expresso, o ônibus que liga a área central aos bairros, sem paradas intermediárias. “O grande desafio para as cidades no século 21 é oferecer transporte público de massa com qualidade e tirar as pessoas dos carros. O BRT se revelou uma solução eficiente”, diz o mexicano Bernardo Baranda, um dos criadores do Metrobus, hoje diretor na América Latina do Instituto de Políticas de Transportes e Desenvolvimento, entidade com sede em Nova York.