A violência que parou a usina de Jirau foi gerada pelo choque entre o progresso e as piores mazelas sociais
O programa de aceleração do crescimento foi abalado nas últimas duas semanas por cenas de faroeste em uma de suas principais obras. Em contraste com o discurso oficial que enaltece o desenvolvimento, a violência na hidrelétrica de Jirau, no rio Madeira, em Rondônia, mostra a distância entre o Brasil imaginado em Brasília e o país real. No primeiro, grandes obras espalhadas pelo país inauguram uma nova era de progresso para milhões de brasileiros. O quebra-quebra com dezenas de ônibus incendiados, destruição dos alojamentos que abrigavam 17 000 operários e roubo de postos bancários, porém, mostrou a realidade nua e crua de um pedaço do Brasil marcado pelo mais profundo subdesenvolvimento. A Amazônia das grandes obras é também a terra de ninguém, de onde o Estado se ausenta e onde a desordem impera.
Uma visita às obras da usina de Jirau evidencia a convivência dessas duas realidades distintas. O canteiro de obras lá instalado não é nenhum hotel cinco estrelas. Os alojamentos que abrigavam, cada um, oito homens ou quatro mulheres eram modestos, mas contavam com um mínimo de higiene e com aparelhos de ar condicionado. A rotina dos operários incluía a formação de filas para quase tudo — mas havia comida e transporte para todos. O salário médio dos operários é de 1 500 reais. Fora do canteiro de obra, em povoados encravados na floresta, a situação é outra. Saneamento, saúde, educação e segurança são precários, quando não inexistentes. Prostituição, criminalidade e tráfico de drogas proliferam nos arredores, estimulados por um fluxo inédito de trabalhadores e novos habitantes.